ResearchBlogging.orgchickensUm dos pontos mais críticos para a entrada de novos vírus Influenza em humanos são animais intermediários, que podem ser infectados com vírus de aves selvagens e convivem com pessoas o suficiente para facilitar um evento de contágio. Os mais notáveis são porcos, patos e galinhas. Porcos tiveram grande destaque no surgimento da pandemia de 2009, sendo portadores das duas linhagens que se rearranjaram e deram origem ao Influenza A H1N1 (2009).

Já galinhas e patos são vítimas frequentes do H5N1 altamente patogênico, o HPAI. Ocorrem surtos anuais de HPAI nestas aves, que matam milhares de animais. E além do prejuízo direto, também há as perdas dos criadores que são obrigados a sacrificar os sobreviventes, para prevenir o espalhamento posterior. Perdas comerciais que são praticamente inevitáveis, uma vez que não se pode conter completamente o espalhamento do HPAI. Ou isso seria possível?

Vacinas ainda estão longe de ser uma alternativa definitiva. A enorme diversidade do Influenza de aves aquáticas é um desafio para a escolha de uma linhagem vacinal, e a mutação constante do vírus garante que mesmo depois de escolhida a linhagem, ela pode se diferenciar o suficiente para não ser mais reconhecida pelos anticorpos. Enquanto vacinas universais contra regiões compartilhadas e conservadas do vírus não estão disponíveis, o problema continua em aberto.

Eis que um grupo de pesquisadores na Inglaterra partiu para uma estratégia mais drástica. Produzir galinhas geneticamente modificadas para serem resistentes à infecção por Influenza. A técnica se baseou na introdução de genes para que as células da ave produzam um grampo de RNA complementar à polimerase viral, uma enzima bastante conservada entre várias linhagens. Quando a célula produz este RNA e o lança no citoplasma, região invadida pelo vírus, o grampo é atacado por proteínas celulares, quebrado em pedaços, e qualquer RNA bastante similar a ele é reconhecido e destruído. Assim, quando o vírus invade a célula, seu gene da polimerase é atacado e destruído, impedindo a produção de novas partículas.

Eles introduziram o gene com a informação para a produção do grampo de RNA em um embrião de galo, com a ajuda de um retrovírus. O galo se desenvolveu normalmente, sendo cruzado com várias galinhas. Metade dos filhotes produzidos continham o gene inserido, e a outra metade sem o gene foi utilizada como grupo controle nos testes.

As galinhas transgênicas e não transgênicas foram infectadas com uma grande dose de H5N1 altamente patogênico, e em seguida colocadas em um espaço com 10 outras aves de mesmo tipo. Geneticamente modificadas com geneticamente modificadas e controles com não transgênicas. Todas as aves contaminadas, independente de serem transformadas ou não, morreram entre 2 e 4 dias depois da infecção. Mas uma diferença foi evidente no grupo exposto. Das aves não transgênicas, 7 em cada 10 morreram cerca de 5 dias após o contato. Entre as geneticamente modificadas, apenas 2 em cada 10 morreram após o mesmo período, e as sobreviventes continuaram saudáveis.

Com evidências de que os animais modificados estavam impedindo a replicação do vírus, foram feitos outros testes para ver que tipo de proteção foi despertada. Desta vez, novamente dois grupos, um transformado e outro controle, foram infectados, mas com uma dose 10% menor de HPAI. Em seguida, os grupos foram divididos em 2 e colocados em contato com os dois tipos de galinhas. Modificadas foram colocadas com modificadas ou controles, e controles foram colocadas com controles ou modificadas.

Novamente, todas as galinhas controle morreram nos dias seguintes, enquanto 2 galinhas entre as 10 modificadas sobreviveram sem problemas. Algumas não haviam morrido por conta da doenças, mas foram sacrificadas por apresentarem sintomas graves. Todas as aves que entraram em contato com as aves controle infectadas, trasngências ou não, morreram por causa de contágio.

O resultado surpreendente veio dos grupos em contato com as aves transgênicas infectadas. Embora parte delas tenha morrido, nenhuma galinha que entrou em contato foi contaminada. A proteção foi tão eficiente que elas não chegaram a produzir anticorpos contra o H5N1, indicativo de que sequer chegaram a entrar em contato com o vírus. Os animais modificados bloquearam tão bem a replicação do vírus que não produziram partículas capazes de infectar.

A análise do vírus produzido nas galinhas transgênicas, obtido por biópsia, indicou que ele se comportava como o HPAI original. Não foram detectadas mudanças que indicassem um mecanismo de escape, algo bastante promissor.

Estes resultados dão força para o desenvolvimento de técnicas que permitam a produção de animais de criação geneticamente modificados, resistentes a doenças. As galinhas trasngências receberam apenas o gene com a informação para produzir o grampo de RNA, que deve atacar apenas o Influenza, e não foram vistas diferenças no ganho de peso durante seu desenvolvimento, ou no número de filhotes gerados. E por mais que haja grandes ressalvas contra o consumo de organismos geneticamente modificados, estas aves podem ser usadas apenas para servir como uma barreira contra a entrada de novos vírus, criadas entre galinhas comuns para impedir a transmissão de um Influenza que por ventura infecte um animal.

Fonte:
Lyall, J., Irvine, R., Sherman, A., McKinley, T., Nunez, A., Purdie, A., Outtrim, L., Brown, I., Rolleston-Smith, G., Sang, H., & Tiley, L. (2011). Suppression of Avian Influenza Transmission in Genetically Modified Chickens Science, 331 (6014), 223-226 DOI: 10.1126/science.1198020