Vaccination US Navy

ResearchBlogging.orgPor uma série de motivos, o Influenza é um dos microorganismos mais temidos. Ebola, Marburg e outros despertam medo e curiosidade por serem tão letais, mas são bem menos transmissíveis e facilmente notados. Já o causador da gripe se espalha facilmente pelo ar, é transmitido antes mesmo de causar sintomas e explora reservatórios animais mais próximos de humanos.

Mesmo assim, as linhagens de Influenza mais temidas são as causadoras da gripe aviária altamente patogênica. Mas Gary Nabel, Chih-Jen Wei e Julie Ledgerwood chamam a atenção para um grande risco praticamente ignorado: o vírus H2N2. A antiga linhagem que entrou em humanos por volta de 1957 na China e ainda circula em aves e porcos. E não são poucos os motivos para se observar o H2N2.

Trata-se de um vírus que já se provou capaz de infectar humanos muito bem, tanto que causou entre 1 e 4 milhões de mortes durante os 11 anos em que circulou, contaminando mais da metade de crianças e adolescentes durante a Gripe Asiática. Ao contrário de vírus como o H5N1, que embora cause uma doença extremamente severa, mas não circula entre pessoas.

E ele continua presente ao nosso redor. Embora tenha sido substituído pelo H3N2 em 1968, ainda circula entre aves e suínos, de maneira similar ao Influenza A H1N1 de 2009. E, como se viu durante a pandemia de 2009, o H2N2 circulante em animais de criação manteve suas proteínas de superfície conservadas, um forte indicativo de que ele requer poucas mudanças (ou nenhuma) para ser transmitido para humanos.

A falta de imunidade também é um fator de preocupação. Entre 1968 e os dias de hoje, a grande maioria dos nascidos nunca foi exposta ao H2N2, de maneira que há uma enorme quantidade de pessoas vulneráveis ao vírus, sem anticorpos. E já se viu que bastaram pouco mais de 20 anos para que o H1N1 que desapareceu em 1957 voltasse a circular em 1977, encontrando milhões de pessoas sem imunidade quando foi reintroduzido. A ameaça está presente.

Os autores do artigo argumentam que o melhor a ser feito é prevenir-se. Um gasto de milhões ou mesmo de bilhões para conter uma doença pode parecer muito, mas depois que uma pandemia se instala, os prejuízos são incalculáveis. A China enfrentou um prejuízo da escala de dezenas de bilhões de dólares com o bloqueio comercial imposto pelo medo da SARS, durante o surto de 2003. Isso sem contar o prejuízo pessoal, com o potencial de mortes que uma pandemia de gripe pode trazer, dada a quantidade de pessoas que pode infectar.

A pequena quantidade de idosos infectados e mortos pela pandemia de 2009 foi um grande indicativo de que, por mais que o Influenza mute, a imunidade prévia pode durar por muitos anos e continuar protetora. Sendo assim, por que não produzir uma vacina contra o H2N2 e imunizar a população, criando uma barreira imune que impediria o vírus de ser reintroduzido?

Por mais que existam antivirais eficazes contra o Influenza, vacinas ainda são a melhor forma de combater o vírus. Mas a produção é um processo lento e custoso, que depende do cultivo viral em ovos, processamento e distribuição que tornam impossível uma resposta rápida o suficiente para conter uma pandemia. Ainda por ser difícil distinguir uma pandemia emergente de um surto mais severo de gripe comum, como se viu em 2009.

Mesmo a produção de uma linhagem estoque para o rápido início do ciclo de vacinas seria algo arriscado. Não só pelo tempo que ainda seria necessário para produção plena de doses, ou pela quantidade pequena que se consegue em meses, mas pela própria distribuição das fábricas. A maioria dos países depende da importação de doses, e em uma pandemia severa, quem o fabricante teria de priorizar, seus compradores ou sua pátria?

Por que não armazenar as vacinas em pessoas? E se este for o caso, como fazer para ela ser bem recebida? Por mais que uma vacina inativada não ofereça o risco de espalhar o H2N2, a população pode simpatizar com a idéia de uma vacina preventiva contra uma doença que ainda nem existe. E a recepção da vacina contra o H1N1 de 2009 deixou claro que o público pode ser bastante avesso a algo que não vê a necessidade iminente.

Como distribuir um medicamento que quanto mais eficiente, menos sua necessidade será aparente?

Fonte:
Nabel, G., Wei, C., & Ledgerwood, J. (2011). Vaccinate for the next H2N2 pandemic now Nature, 471 (7337), 157-158 DOI: 10.1038/471157a