Por que pessoas mais velhas foram as menos atingidas pela nova gripe?

porquinho

©be_khe


ResearchBlogging.orgIdosos, principalmente aqueles com mais de 65 anos, ou seja, os nascidos antes de 1944, constituem a parcela da população menos afetada pelo h1n1. Foi sugerido e posteriormente confirmado pelo CDC que trata-se de imunidade prévia ao vírus. Provavelmente, estas pessoas já haviam sido expostas a um vírus parecido o suficiente com o novo H1N1 para que os anticorpos desenvolvidos ainda fossem protetores.

E esta idéia foi posta à prova por um grupo de pesquisa do Mount Sinai School of Medicine. Utilizando ratos como medidores no desafio letal, já que estes animais morrem quando infectados pela cepa de 2009, eles foram capazes de testar a proteção oferecida por anticorpos desenvolvidos contra várias linhagens de Influenza humanas, de 1918 aos dias atuais.

Por mais que pareça estranho anticorpos contra linhagens humanas serem eficazes contra vírus suínos, uma recapitulada na história de nossas gripes mostra que isso não é nada absurdo. Tanto humanos quanto porcos foram infectados por uma linhagem aviária pouco antes de 1918, que desde então tem evoluído em paralelo, com alguns encontros ocasionais.

E de fato esta semelhança foi confirmada. Ratos infectados com vírus humanos inativados de 1918 a 1943 para desenvolver anticorpos estavam protegidos contra o vírus pandêmico de 2009, bem como os ratos infectados com o vírus suíno comum ou com a linhagem suína da vacina de 1976. Enquanto os infectados com linhagens mais novas não estavam protegidos e acabavam morrendo em contato com o H1N1 recente. Isto mostra que até 1943 as linhagens humana e suína ainda não haviam divergido o suficiente para acabar com a imunidade cruzada, e que esta semelhança ainda está presente nos vírus de porcos.Assim, as pessoas que foram infectadas com linhagens mais antigas ou foram vacinadas em 1976 já contam com imunidade protetora contra o novo H1N1.

As implicações deste estudo são várias e importantes. Antes de tudo, mostra que deve ser dada prioridade para a vacinação de jovens com a nova vacina que está sendo distribuída, já que os mais velhos estão imunes. Outra implicação importantíssima é o papel dos porcos. Antes vistos apenas como intermediários entre aves e humanos, se mostram também reservatórios de vírus que nos infectaram e nossos sistema imune já esqueceu. Tais vírus podem saltar novamente para humanos e encontrar toda uma população suscetível nascida após a linhagem humana se diferenciar mais da suína.

Em segundo lugar, podemos olhar de outra forma a história evolutiva do Influenza em humanos e porcos. Embora ambos tenham uma origem em comum, seguiram seus caminhos com taxas diferentes de evolução. O vírus humano se deparou com uma população crescente, heterogênea e com um tempo de vida longo o suficiente para que uma mesma pessoa seja infectada mais de uma vez, o que favorece linhagens que consigam variar o suficiente para escapar da imunidade prévia. Ao passo que, os vírus suínos encontram um hospedeiro com uma população menor, que sofre menos migrações e é mais homogênea (uma vez que nós artificialmente selecionamos e cruzamos apenas os indivíduos mais produtivos), que é renovada periodicamente.

Tudo isso deve contribuir para que os porcos sirvam como verdadeiros museus de Influenza, mantendo linhagens que já não circulam mais entre pessoas e podem ser fonte de novas linhagens pandêmicas, como acabamos de descobrir na prática. Dentre eles estão os vírus  H1 e H3 que infectaram porcos de 1990 para cá.

Fonte (via This Week in Virology):

Manicassamy, B., Medina, R., Hai, R., Tsibane, T., Stertz, S., Nistal-Villán, E., Palese, P., Basler, C., & García-Sastre, A. (2010). Protection of Mice against Lethal Challenge with 2009 H1N1 Influenza A Virus by 1918-Like and Classical Swine H1N1 Based Vaccines PLoS Pathogens, 6 (1) DOI: 10.1371/journal.ppat.1000745