Fonte: Wikimedia

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ResearchBlogging.orgA transmissão do vírus Influenza, embora seja uma das questões mais básicas, ainda é alvo de muita discussão. O papel do contágio por contato ou por gotículas e aerossóis então, é um dos mais quentes [1]. Depois de  certo intervalo sem novos experimentos, sabemos atualmente que furões e porquinhos-da-índia são infectáveis pelo Influenza A e podem transmiti-lo. Graças a estes modelos animais, estamos estudando as formas de transmissão da gripe, mas está longe de termos tudo esclarecido.

Modelos animais são uma forma de controlar os problemas éticos de realizar testes com humanos, mas não são uma solução ideal. O comportamento deles é diferente, as condições experimentais envolvem gaiolas e ambientes fechados, e controlar o contato entre os animais é bastante complicado. Com isso, todo experimento envolve mais variáveis do que seria ideal. Além do temperamento dos furões, dignos de menção em vários artigos. E olha que artigos científicos não são alvo frequente de desabafos.

Portanto, experimentos involuntários com humanos são de grande valor. Vamos ver dois destes, e o que podemos inferir:

Em 1977  uma das escalas de um vôo da Alaska Airlines, o avião com 54 passageiros permaneceu no solo por 3 horas para reparos na turbina. Durante estas 3 horas, o sistema de ventilação permaneceu desligado para economizar combustível, e os passageiros respiraram o mesmo ar.

Um dos passageiros estava com Influenza A confirmado em laboratório. Em 3 dias, 39 dos 54 passageiros desenvolveram gripe. Destes, em 8 casos foi possível isolar uma cepa parecida – A/Texas/1/(H3N2) – e 20 outros passageiros testaram positivo para anticorpos contra o mesmo vírus. Exato, 3 horas respirando o mesmo ar que uma pessoa gripada e 72% dos passageiros contraíram gripe. O artigo ainda sugere que a taxa de contágio variou de acordo com o tempo gasto a bordo enquanto o avião permaneceu parado, uma vez que nem todos ficaram dentro do avião o tempo todo. Note que não houve menção sobre a circulação do passageiro considerado caso zero dentro do avião, de forma que não podemos excluir o contágio por contato. [2]

O fato da circulação de ar estar comprometida no vôo do Alasca pode dar certo alívio, mas não é um caso único. Mais recentemente, em um vôo militar americano, 23 passageiros de 50 ficaram doentes após dividirem a cabine com 11 colegas gripados, embora a aeronave estivesse com o sistema de ventilação plenamente funcional, renovando o ar a cada 4 minutos, em um fluxo direcionado do teto para o chão do avião. [3]

O que isso nos diz? Os aerossóis, partículas bem pequenas de saliva contendo o vírus que exalamos ao espirrar ou mesmo respirar quando estamos gripados, provavelmente têm um  papel importante na transmissão do influenza. Some-se a isso os transportes públicos, com grande quantidade de pessoas circulando em um ambiente muitas vezes fechado e mal ventilado, e temos noção da importância de campanhas públicas que promovam a educação e conscientização de doentes para que evitem sair de casa quando gripados, e cubram aboca e  nariz com um lenço quando forem espirrar e descartem o lenço logo em seguida.

Fontes:

[1] Lemieux, C. (2007). Questioning Aerosol Transmission of Influenza Emerging Infectious Diseases, 13 (1), 173-175 DOI: 10.3201/eid1301.061202
[2] Moser MR, Bender TR, Margolis HS, Noble GR, Kendal AP, & Ritter DG (1979). An outbreak of influenza aboard a commercial airliner. American journal of epidemiology, 110 (1), 1-6 PMID: 463858
[3] Klontz KC, Hynes NA, Gunn RA, Wilder MH, Harmon MW, & Kendal AP (1989). An outbreak of influenza A/Taiwan/1/86 (H1N1) infections at a naval base and its association with airplane travel. American journal of epidemiology, 129 (2), 341-8 PMID: 2912044