02/09/2009
Por que tememos a gripe 2 – o vírus
No texto anterior abordei por que é difícil desenvolver antivirais, aqui vamos entender quais são as características do vírus influenza que nos preocupam.
De onde vêm os vírus e o que os torna mais ou menos perigosos?
Os vírus que nos infectam podem já estar conosco ao longo de nossa história evolutiva, ou saltar recentemente de outros animais. O HTLV por exemplo, já infectava o ancestral comum entre humanos e chimpanzés antes de nossa divergência. De forma geral, tais vírus dificilmente causam doenças graves. Os hospedeiros e eles já tiveram tempo suficiente para atingir um ponto onde, embora o vírus consiga se replicar e infectar, ele não debilita o portador a ponto de diminuir as chances de ser transmitido.
Outros vírus podem circular apenas em humanos, mas terem sido transmitidos de animais há um longo tempo. Parece ser o caso da varíola, que nos foi transmitida de vacas ou camelos por volta de 10000 a.C., mas conviveu conosco tempo suficiente para que as pessoas mais resistentes à doença fossem selecionadas. Isso explica a enorme mortalidade de Incas e outros povos das Américas, que nunca haviam sido expostos antes, com a chegada dos Espanhóis, que conviveram com o vírus por milhares de anos. Aliás, a morte de tantos Incas por causa da varíola mostra o que acontece quando um vírus novo passa a infectar seres humanos.
Os vírus que matam uma porcentagem enorme dos infectados, como o Marburg ou o Ebola, ambos filovírus causadores das terríveis febres hemorrágicas, são geralmente vírus que saltaram recentemente de outros animais para humanos. Em alguns casos chegam a matar mais da metade dos doentes. Esta mortalidade mostra que o vírus ainda não está adaptado ao hospedeiro humano. Quando ele entra em uma pessoa, causa tanto estrago, e tão rapidamente que a transmissão para as próximas vítimas é comprometida. Por mais que fiquemos impressionados com os sintomas, como falência dos órgãos e vômito sanguinolento, isso torna fácil reconhecer um infectado e isolá-lo.
Os morcegos frugívoros Rousettus aegyptiacus, considerados hospedeiros naturais do Marburg, mostram o que seria um vírus já bem estabelecido. O vírus isolado destes morcegos em uma caverna de Uganda possui uma diversidade muito maior do que a encontrada em humanos, além de ser encontrado em morcegos saudáveis. Situação que indica um equilíbrio entre parasita e hospedeiro.
Embora nos preocupemos muito com estas zoonoses (vírus que saltam de animais para humanos), e outras como a febre amarela, geralmente são doenças com sintomas reconhecíveis e com pouca transmissão entre humanos. Por isso, tendem a causar graves estragos localmente, mas não se espalham globalmente com facilidade.
Outro fator que deve ser levado em conta são os vetores. Vetores são os intermediários que trazem o vírus de um reservatório para humanos. Os mais frequentes são os pernilongos, transmissores de várias doenças como dengue e febre do Oeste do Nilo. Doenças que dependem de vetores estão restritas a locais onde os vetores ocorrem, e podem ser prevenidas com o combate ao vetor, como as campanhas de controle do Aedes aegypti para prevenção da dengue.
E o Influenza?
No caso do Influenza, são vários destes fatores que jogam a favor do vírus. Seu reservatório natural são as aves aquáticas, portadoras do vírus em seu sistema digestivo que possuem a maior diversidade de HA (H1-H16) e NA (N1-N9). Estas aves são migratórias e espalham o vírus pelo mundo todo, principalmente através dos lagos onde várias espécies se encontram. Com isso, o vírus consegue circular mundialmente em pouco tempo e estar sempre em contato com o ser humano.
Os vetores do Influenza também são especiais. São os animais de criação, principalmente porcos e patos. Além de conviver em contato com aves selvagens, não são animais que podemos erradicar como forma de prevenção. Esta situação é agravada pelas técnicas de criação dos porcos, a mistura de animais de várias localidades e a convivência de uma grande densidade deles, que favorecem a transmissão e circulação do Influenza.
Outro agravante é o rearranjo. O rearranjo é a mistura entre dois ou mais vírus que infectam uma mesma célula, e misturam seus genes ao sair. Além do porco possuir o mesmo tipo de receptor celular que nós, ele pode ser infectado por vírus humanos e de aves, servindo de intermediário onde o vírus pode se adaptar a humanos e ser transmitido com mais facilidade. O hospedeiro ideal para o vírus se rearranjar e adquirir proteínas que são novas para nosso sistema imune.
As mutações também favorecem o vírus. O Influenza possui como material genético o RNA e para replicá-lo ele usa sua própria RNA polimerase, que é propensa ao erro. Com isso, a cada ciclo de replicação o vírus muta seu material genético e muda suas proteínas. Muda o suficiente para que nossos anticorpos não reconheçam mais o vírus depois de alguns anos, assim a população suscetível a ele não diminui e a cadeia de transmissão se mantém.
A variação do vírus também contribui para que a vacina não seja eficiente por muito tempo. Enquanto para combater o vírus da varíola bastou apenas uma vacina, que foi distribuída mundialmente e erradicou a doença da humanidade, para combatermos o Influenza precisamos desenvolver vacinas novas anualmente, e os seis meses entre o isolamento do vírus circulante e a distribuição da vacina podem ser suficientes para ela perder eficiência por causa das mutações do vírus.
Por último, está a transmissão do vírus. Embora os patos e porcos possam servir de vetores para o vírus aviário, uma vez adaptado aos humanos ele transmite-se perfeitamente bem. Some-se a isso o fato de que os sintomas da gripe são comuns a várias outras doenças e que cerca de 1/3 dos doentes não desenvolve sintomas (embora possam transmitir o vírus) e temos uma situação de difícil controle.
Espirros, tosse e mãos sujas com muco carregado de Influenza são formas de transmissão bem eficientes. E são agravadas pela nossa crescente aglomeração em locais públicos, veículos de transporte e outros. Assim, o vírus não só é transmitido facilmente como dispõe de uma população suscetível crescente e convivendo intimamente.
O que nos preocupa afinal é essa confluência de fatores. Um grande reservatório natural, intermediários dos quais não podemos nos desfazer, variabilidade suficiente para escapar de nossa imunidade e da vacina em intervalos regulares, chances de rearranjo e introdução de genes inéditos do vírus na população humana e uma transmissão fácil e rápida, agravada pela facilidade crescente de viagens e grandes aglomerações.
Fontes:
Wolfe, N., Dunavan, C., & Diamond, J. (2007). Origins of major human infectious diseases Nature, 447 (7142), 279-283 DOI: 10.1038/nature05775
Carrat, F., Vergu, E., Ferguson, N., Lemaitre, M., Cauchemez, S., Leach, S., & Valleron, A. (2008). Time Lines of Infection and Disease in Human Influenza: A Review of Volunteer Challenge Studies American Journal of Epidemiology, 167 (7), 775-785 DOI: 10.1093/aje/kwm375
17 Comentários » Postado em: Transmissão e sintomas


Parabéns pelo blog e principalmente pelo dia do biólogo. Sou biólogo e doutorando em genética e biologia molecular e gostaria que você pudesse comentar em seus futuros tópicos, algumas afirmativas que estranhamente não estão sendo repassada a opinião pública, como por exemplo:
Seria a vacinação contra a gripe anual, responsável pela baixa no número de relatos em idosos?
Qual a eficácia da vacina produzida por cepas de A/Solomon Islands/3/2006 (H1N1), A/Brisbane/10/2007 (H3N2) e A/South Dakota/6/2007 (vacina contra a gripe), principalmente relacionado a “proteção cruzada”? Acredito que geneticamente produza uma primeira barreira de proteção, pois o vírus atual apresenta hemaglutinina de superfície e neuraminidase semelhantes.
Nesse momento não seria recomendado a vacinação PNEUMOCOCICA? Pois além da proteção (mesmo sabendo que não existe vacina com 100% de eficácia) contra a pneumonia pneumocócica (bactéria Streptococcus pneumoniae, pois atuaria como infecção oportunista gerando agravamento do quadro do paciente) e bacteremia pneumocócica também protege contra a septicemia.
Um grande abraço e Parabéns.
Paulo, excelente pergunta para o especialista. Tenho outra dúvida: a baixa de relatos em idosos também pode estar associada à resistência criada por pandemias anteriores?
Em breve sai um texto respondendo a ambos!
[...] Porque tememos a gripe 2 – o vírus « Influenza A (H1N1) Blog blog.h1n1.influenza.bvsalud.org/pt/2009/09/02/porque-tememos-a-gripe-2-%E2%80%93-o-virus – view page – cached #Influenza A (H1N1) Blog » Feed Influenza A (H1N1) Blog » Comments Feed Influenza A (H1N1) Blog » Porque tememos a gripe 2 – o vírus Comments Feed Influenza A (H1N1) Blog Porque tememos a gripe 1 – os antivirais PLoS Currents: Influenza, revolucionando a maneira como lidamos com uma pandemia — From the page [...]
O vírus da gripe espanhola também foi identificado como H1N1. Agora surge a gripe suína identificada como A H1N1. Afinal, trata-se do mesmo vírus? O que diferencia um do outro? Há quem diga que a infecção pelo A (H1N1) seria igual à de 1918, que começou devagar e, depois, matou milhões. O senhor pode esclarecer?
Daniela,
A resposta e a história do vírus estarão no próximo texto. Resumindo: são vírus próximos, e alguns genes do H1N1 atual vieram do de 1918.
[...] um comentário de Paulo Amaral com perguntas fantásticas, que me fazem adiantar este post. Abaixo vão as perguntas, e a resposta [...]
Parabéns pelo blog e principalmente pelo dia do biólogo. Sou biólogo e doutorando em genética e biologia molecular e gostaria que você pudesse comentar em seus futuros tópicos, algumas afirmativas que estranhamente não estão sendo repassada a opinião pública,
Preciso de uma informação urgente.tem 3 dias que estou com forte dor de cabeça,dor nos ólhos,e um cançaço muito fora do nomal,nariz ressecado,estes podem ser o sintoma da tal gripe H1N1?
Ana,
Não posso fazer diagnósticos por não ser médico. Recomendo que você procurem um Pronto Socorro o quanto antes.
Obrigado esclareseram-me as duvidas que tinha
xd
fui vacinada contra gripe ah1n1 ha 5 dias e estou com tosse seca, 37,3 de febre e sinto-me cansada,tenho um pouco de falta de ar,dores musculares e para além disto um ligeiro enfisema bilaterl pulmonar,fiz uma tiroidectmia ha 9 meses estou a tomar tyrax 0,1+oo12,5, concord 5mg e olcadil sos francamente nao sei se hei-de incomodar o medico
@Sheila,
É frequente as pessoas sentirem alguns sintomas da gripe após a vacina, pois o corpo responde ao vírus vacinal como responderia a um vírus comum. Mas não posso afirmar nada além disso, uma vez que não sou qualificado para exercer a medicina. Sugiro que você procure um médico.
thank you ja fui ao medico mandou-me tomar paracetamol 1000mg de 8 em 8 horas e nada mais de qualquer modo ja estou melhor a febre baixou e a tosse tambem e as dores no corpo tabem.
eu gostei desse blog ele é 10 !!!
Gostei bastante desse Blog!!!!
[...] uma série de motivos, o Influenza é um dos microorganismos mais temidos. Ebola, Marburg e outros despertam medo e curiosidade por serem tão letais, mas são bem menos [...]